Industrialização da Laranja
            Fonte: "A Laranja no Brasil", de Geraldo Hasse
          São Paulo, 1987 - Edição de Duprat & Iobe Propaganda
Sem contar as indústrias caseiras de doces e bebidas, que já existiam bem antes de 1900, a primeira fábrica de suco de laranja não concentrado foi montada durante a II Guerra Mundial para o fornecimento no mercado interno. Montada pelo governo do estado de São Paulo para evitar o desperdício da fruta, a empresa fracassou por falta de mercado consumidor. A febre de produção de óleos essenciais, subproduto da laranja, durante a guerra também foi fugaz. Nenhuma das primeiras iniciativas permaneceu pois eram resultantes de projetos de emergência, nascidos da sobra do produto.

A recuperação das exportações de laranja com o pós-guerra, que tanto animou os citricultores, era insuficiente para absorver toda a laranja disponível a cada safra. Como o mercado interno era pouco desenvolvido, a idéia de industrialização do excedente ganhou adeptos entusiasmados.

Em 1959, instalou-se a primeira fábrica de suco concentrado no Brasil, a Companhia Mineira de Bebidas. Em 1961, a Citrosuco Paulista enviava para os Estados Unidos as primeiras 1.000 toneladas de suco concentrado.

O grande impulso para o desenvolvimento da indústria cítrica brasileira foi a geada que atingiu os pomares da Flórida em 1962, chegando a destruir 13 milhões de árvores adultas. Essa geada acabou se tornando um marco para a indústria brasileira. Os americanos não tinham matéria-prima para abastecer o seu mercado interno e os mercados europeus.

O Brasil correu para preencher essa lacuna, acelerando o desenvolvimento da indústria de processamento de laranja. No início da década de 60 fez as primeiras exportações experimentais de suco concentrado de laranja, mas a indústria de suco voltada para a exportação nasceu mesmo em 1963.

A partir de 1966, as vendas se firmaram e a indústria cítrica brasileira entrou numa fase de franca expansão.

Até 1970/71, pode-se dizer que a indústria cresceu ocupando brechas no mercado internacional e aproveitando a legislação brasileira que beneficiava as exportações.

Para o setor citrícola, esse período foi de aprendizado, amadurecimento e estruturação. Com o passar do tempo a indústria brasileira superou em nível tecnológico os países mais avançados do setor.

Na década de 80, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de laranjas, superando os Estados Unidos. Desde então, sustenta o título e se tornou também o líder na produção de suco desta fruta. À medida que a indústria se firmava como um figurante de peso na pauta das exportações do país, caíam os embarques de laranja in natura. Já em 1981, as exportações brasileras de suco de laranja concentrado ultrapassavam 600 mil toneladas anuais. Para os citricultores, entregar a fruta para a indústria se tornou uma alternativa mais segura.

Hoje, a maior parte da produção brasileira de laranja destina-se à indústria do suco, que está concentrada no Estado de São Paulo. O setor emprega diretamente cerca de 400 mil pessoas, é atividade econômica essencial de 322 municípios paulistas e 11 mineiros, gera divisas superiores a US$1 bilhão anuais, no centro de uma cadeia produtiva que gera PIB equivalente a US$5 bilhões. As exportações de suco de laranja se mantém, desde 1994, entre 1,1 e 1,2 milhões de toneladas.

Apesar do suco de laranja concentrado e congelado ser o principal produto da laranja, vários subprodutos, com valor comercial, são obtidos durante o processamento. Entre esses subprodutos estão óleos essenciais, d'limonene, terpenos, líquidos aromáticos e farelo de polpa cítrica.

Esses subprodutos possuem diferentes aplicações no mercado interno e externo, que incluem fabricação de produtos químicos e solventes, aromas e fragrâncias, substâncias para aplicação em indústrias de tintas, cosméticos, complemento para ração animal, entre outros.

Como os Estados Unidos se dedica a abastecer o seu mercado interno, o Brasil transformou-se no maior exportador mundial de suco de laranja, atendendo hoje cerca de 50% da demanda e 75% das transações internacionais. Não há nenhum outro produto industrializado onde a presença do Brasil seja tão marcante.

Esse crescimento teve uma base tecnológica permanente. Nas técnicas de plantio e de defesa sanitária, no processamento e na logística de transporte. O Brasil é o único país do mundo a dispor de uma frota de navios graneleiros operando exclusivamente com suco de laranja. Comparativamente, cada um desses navios transporta a carga de 600 caminhões - que são vistos descendo a serra em direção a Santos e Guarujá. É uma operação de vulto que exige tecnologia de ponta, investimentos e, principalmente, volumes de produto a ser exportado.